CR&ME

Uma das maiores batalhas da minha vida é a tentativa diária de não me tornar cínica. Esforço-me muito para não me deixar cair nesse poço sem fundo que é a indiferença perante o mundo, as pessoas e eu mesma. Na maior parte dos dias consigo ser tocada pelo mais pequenos e invisível dos gestos, mas este escudo que, algures no tempo, encontrei para me proteger da dor faz com que, tantas e tantas vezes, me esqueça de engolir a beleza do que me rodeia.

Perdidas no mundo existem (poucas) pessoas que, num estalar de dedos, me tiram da apatia cínica em que às vezes caio. Uma delas é o Cristiano Ronaldo. Um tipo que, na minha fantasia infantil, é tudo de bom. Admiro-lhe aquilo que não vejo em mim, sobretudo uma crença e uma vontade férreas, inabaláveis, inexpugnáveis e imunes ao cinismo que me cobre.

E agora uma confissão: quando às vezes sinto a cabeça enfiada no buraco onde habita a terrível noção de que sou auto-suficiente e imune aos outros, pergunto-me “o que faria Cristiano Ronaldo?” E depois imagino-lhe passos e atitudes, todas elas boas, não imunes ao erro, mas propulsoras de caminho e avanço.

A força mental deste super homem, cujo início de vida quase lhe ditava o destino, é das coisas que mais me fascinam e intrigam na vida. O que é que pensa quando está triste? Como se motiva quando precisa de força? Como vive a pressão da sua vida? Quando o vejo e ouço –  inabalável na vontade, imperturbável na crença, uma força rara, nos gestos, nas palavras, no carácter – fico subitamente mais forte. E tenho o raro, raríssimo, pensamento: se ele pode, eu também posso.

Obrigada, Cristiano.

 

O que eu gostava que Paulo Bento dissesse no final deste Mundial

“Agradeço a presença de todos nesta conferência de imprensa e aviso que não vou responder a perguntas porque tenho várias coisas a dizer. A primeira é um pedido de desculpas a todos. Sou o líder desta equipa e os resultados, bons e maus, são da minha responsabilidade. Quando a equipa ganha, o mérito é dos jogadores. Quando perde, o ónus é meu. Por isso, estou aqui para dizer que me demito e que vou, nos próximos tempos, passar mais tempo com a minha família e amigos, mas também comigo mesmo para tentar perceber se isto de ser treinador de futebol, pelo menos a este nível, é uma coisa que eu posso ter como profissão.

Tive muitos momentos neste Mundial e mesmo antes dele, em que me senti pressionado a ir numa direção quando tudo me dizia para ir no sentido inverso. E isto passou-se na escolha de jogadores para trazer ao Brasil, na escolha das equipa em cada jogo e no facto de saber que existem situações que eu, como chefe desta comitiva, deveria saber e não sei. Não vou apontar o dedo a ninguém mas existem coisas estranhas que se passaram e que tratarei nas instâncias competentes.

No entanto, estas pressões de que falo são coisas sobre as quais eu, como profissional e como homem, assumo total responsabilidade. Não soube, nos momentos certos, ter a calma, a clareza e a força necessárias para tomar decisões que agradariam a uns e a outros nem por isso. E tenho de determinar por que razão o conflito da tomada de decisões deste calibre me levou a colocar em causa um Mundial inteiro e, no limite, a sair da competição desta forma inglória.

Quanto aos jogadores, o que lhes queria dizer é que para alguns deles, talvez como para mim, está na altura de sair de cena. Nada contra as barbas e os penteados, cada um tem o direito de seguir o seu estilo, mas futebol a este nível é, antes de mais, sobre concentração. E depois, talento. E alguns de vocês já não têm uma coisa nem outra. Por isso, está na altura de dar lugar a sangue novo, coisa que eu, lamentavelmente, só me apercebo agora.

Em relação ao Cristiano Ronaldo, agradeço-lhe o facto de ter jogado lesionado, colocando em causa o seu futuro e a sua saúde para ajudar esta equipa. O país deve estar-lhe grato mas gratidão é uma coisa, histeria é outra. E vocês, jornalistas, são histéricos. Além de, na sua maioria, serem um bando de gente tecnicamente mal formada.

Era só isto que queria dizer. Assim que chegar a Lisboa, naturalmente, apresentarei a minha demissão a quem de direito e conto estar longe deste mundo do futebol durante um bom tempo.

Obrigada.”

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