Tuga

Sempre quis morar noutro país. Nada contra este, que me acolhe e ao qual estou grata, mas há sítios onde me sinto melhor. Como em Londres. Emigrar não é uma coisa fácil, até para mim que tenho essa ambição desde que me lembro de existir e ir ao aeroporto dizer adeus aos aviões que levavam os meus primos de volta para os Estados Unidos, no final de cada verão.

Mudei-me para Londres em janeiro de 2005 e, de imediato, me apercebi que era ali que queria viver. Tornei-me londrina no momento em que me acomodei ao ritmo, fundamentalmente diferente, das horas e dos dias. Fiz amigos de todos os lados do mundo aos quais ainda me ligo (hey, Sri Lanka!), ganhei hábitos diferentes (adoro levantar-me cedo), gostos que mantenho até hoje (continuo a ler diariamente a imprensa inglesa) e, na maior parte do dia, penso e leio em inglês.

Mas mesmo assim, mesmo para uma emigrante apaziguada como eu, mesmo que Portugal seja pouco mais que o país onde nasci, há momentos em que a força das raízes e da língua é tão avassaladora que dei muitas vezes por mim a sentir-me calma e feliz ante uma caralhada portuguesa ouvida no metro. Quando me apetecia um Bitoque, ia até à casa do Sporting, em Notting Hill, e aquele sucedâneo mal parido dos maravilhosos bitoques de Lisboa sabia-me pela vida. Procurei várias vezes por Cérelac e por sumos Compal, mesmo que a granola escocesa e os sumos naturais abundassem lá por casa.

No mundial de futebol, em 2006, quando Portugal jogou com a Inglaterra, decidi ver o jogo sozinha em casa, num bairro 90% inglês. E chorei (se chorei!) ao primeiro acorde do hino. Foda-se, o hino…não há nada que te diga mais o quão pertences a um sítio do que a intensidade com que cantas o hino. E eu, que não me sinto igual ao Portugal de agora nem ao “portuguesismo” moderno, sou, indubitavelmente, portuguesa. Eterna emigrante mas, para sempre, lusa.

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Chorar

Durante muitos anos não chorei. Não tinha vontade, nada me tocava especialmente, nada me alegrava ou entristecia. A naturalidade das lágrimas acontece quando aceitamos isso como parte do que a vida é, com eventos que nos afectam, pessoas que nos magoam ou surpreendem e deixam felizes. Quando deixei de ter medo de chorar, isso passou a definir-me. Quem me acompanha no quotidiano sabe que todos os dias choro porque todos os dias me consigo emocionar com alguma coisa que vejo, tão aleatório quanto uma declaração de amor entre pais e filhos ou um cão que está feliz quando o dono regressa a casa. Agora raramente choro porque estou triste, e a tristeza atinge-me um bocadinho todos os dias também. Não me comovo com alguma música porque ela me deixa sorumbática mas, sobretudo, porque ele me parece mais bonita do que eu a imaginei.

Por isso, quando o olhar embacia de tanto aguentar um ribeiro que teima em saltar, sorrio e limpo as lágrimas. Não há nada de mal em chorar. Não há nada de mal em me emocionar. Não há nada de mal em ser humana.

Este vídeo emocionou-me muito esta manhã. Mas, seguramente, outros motivos se seguirão.

 

Sexless

Novo artigo no Delas.pt

Há quem diga que a líbido esmorece, que o interesse desaparece, que a vontade fenece, mas será o casamento o verdadeiro responsável pelo fim do sexo nas relações? Não faltam relatos de vidas sexuais excitantes antes do “sim, aceito”, ou mesmo nos tempos em que a ideia de vida em comum ainda não foi concretizada. As histórias começam quase sempre do mesmo modo: uma atração fulminante, uma sexualidade diversa, constante, primorosa, até que o casamento ou a vida em comum se divertem a desfazer aquilo que a natureza e o desejo construíram. Será que a intimidade e o doméstico matam a vida sexual dos casais?

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Das escolhas

Pessoalmente ou online, a quantidade de relatos que me chegam e que versam sobre corações partidos são mais que muitos, e sempre no feminino. E embora cada história seja uma história, há pedaços de narrativa fáceis de identificar como sendo comuns a todas. Especialmente o item “respeito por si mesma”. Naturalmente, isto significa coisas diferentes para pessoas diferentes, mas há mínimos olímpicos, que são aqueles que todas nós, que já nos ignorámos pelo menos uma vez na vida, sabemos identificar mas não queremos saber.

Somos tão condicionadas a achar que a parelha é o único formato aceitável para uma vida feliz que, a partir de uma certa idade, nos agarramos ao primeiro idiota que nos disser o que queremos ouvir. E é muito fácil de descobrir esse guião porque ele é composto por todas as palavras, frases e gestos que se aplicam quando queremos manipular alguém. Acreditem: o desespero por amor e carinho tem um odor que vai longe e se é normal tropeçarmos em gente de merda a achar que o que sentimos é aroma de rosas, é complicado perpetuar essas escolhas a achar que há coisas que “só nos acontecem a nós”.

Vamos lá a ver uma coisa: escolher a pessoa errada uma vez é normal. Duas vezes, é distração. Três vezes, é padrão. E é esse padrão, esse modo como nos sentimos atraídas pelo que nos faz mal e, intencionalmente, nos entregamos a pessoas e relações podres, que faz com que o mundo nos pareça uma cáfila de filhos da puta que existe para nos tirar a paz e a alegria que merecemos ter. Não são sempre os outros que estão errados, somos nós que, ao instalá-los na nossa vida sabendo, ou intuindo, algo de errado, aceitamos que não vamos nunca ter melhor.

A vida não nos acontece. As nossas escolhas, sim.

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Quero voltar para a ilha…

Não sei o que vai acontecer com a saída do Reino Unido da União Europeia mas sei o que isso faz aos meus planos futuros e à minha geografia sentimental.

Numa altura em que a vida em Portugal não me oferecia grande entusiasmo, decidi emigrar para Londres. Não tinha dinheiro para mais de 1 mês, não conhecia ninguém, não tinha trabalho. Falava inglês, tinha cabeça para pensar e saúde para trabalhar. Estávamos em janeiro de 2005.

Vivi em Londres os melhores e mais difíceis anos da minha vida. Comi muita lata de feijão para conseguir pagar a renda, levei com muitas portas na cara e servi muitas mesas. Foram primeiros meses complicados para quem, como eu, vinha do privilégio e do seguro, em Lisboa. Meses depois, consegui o meu primeiro trabalho decente. Depois de largas semanas a fazer vendas porta a porta, veio o primeiro paycheck mensal. Curto, mas certo.

Londres não me deu tudo o que queria porque eu nem sabia que queria tanta coisa. Deu-me, sobretudo, a noção de horizonte, de que tudo é possível se trabalharmos e nos focarmos. Além disso, deu-me uma ideia mais clara do que é ser europeu. Numa cidade com tantas nacionalidades, pertencer à Europa era um privilégio que só lá compreendi, logo desde cedo, e nas coisas mais normais do quotidiano, desde o Social Insurance Number, que te chega mais rapidamente por seres de um “friendly country”, logo, menos atreito a questões que tornam o processo mais moroso; até ao facto de as saudades da família poderem ser atenuadas ao fim de semana, numa viagem de pouco mais de 2 horas. Seres europeu em Londres não te dava um livre passe para tudo, mas fazia com que te sentisses mais em casa do que qualquer outro emigrante que, como eu, lá estava a tentar a sua sorte.

Emigrar não é para todos. Até eu, que sempre o quis fazer, me senti pequenina a comprar um bilhete só de ida. Da mesma forma que me sinto pequena hoje, ao sentir que o meu sonho e o meu Plano B se foram, de uma penada. Do mesmo modo que fiz as malas e zarpei em 2005, tinha como ideal viver a minha reforma em Londres. E se, antes desses golden years, tudo corresse mal em Portugal, voltaria a enfiar meia dúzia de pertences dentro da mala e, feliz, voltaria à ilha.

Só o amor me prende em Lisboa. Mas é o amor a Londres que me fará sempre voltar.

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Delas.pt – Cadê você, Ponto G?

Será que ele existe?

Como em tanta coisa na sexualidade, sobretudo feminina, as dúvidas existem e devem ser consideradas. Mas o facto de os estudos feitos não contemplarem mulheres até bastante tarde faz com que muito pouco se saiba sobre o modo como as mulheres respondem aos vários estímulos. Naturalmente, não ajuda que, como sociedade, tenhamos uma quase obsessão pouco saudável pelo lado performativo do sexo, esquecendo o desejo, o erotismo e tantas outras razões que o tornam rico e colorido.

Mais em delas.pt.

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Delas.pt – Bissexuais, nós?

Já saiu mais um artigo no Delas.pt

Seremos todas bissexuais?

Seremos todos bissexuais? O que se sabe e se observa é que há uma certa cultura pop que amplifica a bissexualidade como uma orientação válida e fora da penumbra do preconceito. Desde Katy Perry que canta ter gostado de beijar uma mulher ou a atração por mulheres assumida por Angelina Jolie, passando pela ambivalência sexual de Lou Reed, os tempos modernos parecem aceitar que a bissexualidade não apenas existe como está aí de pedra e cal. Se isso tem paralelo nos meios académicos e laboratórios de ciências sociais, ainda está para se ver. Mas o que sabemos, até agora, é que a orientação sexual de cada um está ligada ao modo como nos identificamos a cada momento. Se isso nasce connosco ou se é apreendido ao longo da vida, ainda está para ser provado.

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Espelho meu, espelho meu

Não sou a pessoa que mais amizade tem com o espelho. Não gosto de me mexer, tenho tendência para engordar e a minha matriz diz-me que um corpo magro é sempre preferível a um corpo menos magro. Não interessa de onde vêm os meus parâmetros, interessa que já não me servem. Ou não me vão servindo. Estou cansada de achar que só sou bonita se tiver menos 10 quilos, que só sou digna de afecto se a balança acusar menos peso, que o mundo vai finamente reparar que eu existo quando ficar metade do que sou.

Tenho este tipo de questões desde que me lembro de existir mas a idade tem-se encarregado de limpar algum pó e acentuar outras poeiras, como esta. O lançamento do livro veio de novo acordar esta besta meio adormecida. O facto de me ver pesada em cada foto (e foram muitas…) fez com que tomasse e deixasse de tomar medidas. De todas, ficou a da saúde. Mexo-me para ser saudável, ponto final. Não parágrafo, porque há dias, como o de hoje, em que os demónios andam à solta e me fodem o juízo a cada passo.

Há pouco encontrei esta foto. Adoro-a.

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