Prego a fundo

Não tenho resoluções de ano novo, só vontade, necessidade e muito cansaço. E não tenho resoluções porque isso implica que o Ano Novo é a única altura certa para mudanças, o que é mentira. Também podia elaborar sobre as coisas que quero para mim mas já estou farta de falar (e escrever) e agora é tempo de agir. Assim que me passar a miúfa de ter que fazer coisas que não quero nem gosto mas que, vejo, serem um caminho para outras maiores, passarei a contar os meus feitos. Até lá, continuarei a tentar sem enumerar pequenas vitórias, pequenos nada new age que, parecendo que não, só nos deixam mais lentos e a amargurar no mesmo sítio.

Cansei-me das tais pequenas vitórias. Cansei-me dos manuais de auto-ajuda. Cansei-me de ser eu nesse registo. Deixem-me passar, que eu estou pronta para o prego a fundo.

Bring it on 2017.

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Lunar

Um dos perigos da era moderna é esta imposição de felicidade. A tristeza, a zanga, a raiva, todas elas emoções que nos servem tantas vezes de espelho ao que nos leva tristes, deram lugar a uma alegria bacoca e editada que nos forçamos a sentir.

Não eu. Não hoje. E não aqui. Porque não me faltam a zanga com o mundo, a raiva que sinto de alguns outros e a tristeza que aparece por me sentir assim. Reconheço bem estes sintomas. São pedaços da minha natureza que se manifestam de cada vez que sinto a injustiça a rondar-me a vida e o controlo (que sei não existir mas cuja aparência preciso como do pão para a boca) a fugir-me por entre os dedos.

E sempre que a vida me traz até aqui, há um negrume que me sai das entranhas e desvenda o animal raivoso que sou, lá fundo. Torno-me irracional, violenta, feia. Tenho de fazer um esforço consciente para me lembrar que sou humana, para convocar a bondade que sei também ter, e engolir a mágoa e as zangas que me acompanham nestes dias mais sombrios.

Tenho também de me disciplinar a não usar o chicote que tenho sempre apontado ao meu próprio lombo e lembrar-me, a todas as horas do dia, que sou apenas uma pessoa. Não tem mal estar triste. Não tem mal sentir coisas feias e assustadoras. O que tem mal é fingirmos que engolimos o sol quando estamos em profundo e completo estado lunar.

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42

Não sei para onde é que o tempo levou os demónios mais negros mas sei que o que ficou nesse lugar foi uma força e uma crença na vida tão grandes que, aos 42, me sinto com a força de mil Homens.

Hoje é o melhor dia do ano. Foda-se, hoje faço 42 e estou melhor do que nunca.

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Tuga

Sempre quis morar noutro país. Nada contra este, que me acolhe e ao qual estou grata, mas há sítios onde me sinto melhor. Como em Londres. Emigrar não é uma coisa fácil, até para mim que tenho essa ambição desde que me lembro de existir e ir ao aeroporto dizer adeus aos aviões que levavam os meus primos de volta para os Estados Unidos, no final de cada verão.

Mudei-me para Londres em janeiro de 2005 e, de imediato, me apercebi que era ali que queria viver. Tornei-me londrina no momento em que me acomodei ao ritmo, fundamentalmente diferente, das horas e dos dias. Fiz amigos de todos os lados do mundo aos quais ainda me ligo (hey, Sri Lanka!), ganhei hábitos diferentes (adoro levantar-me cedo), gostos que mantenho até hoje (continuo a ler diariamente a imprensa inglesa) e, na maior parte do dia, penso e leio em inglês.

Mas mesmo assim, mesmo para uma emigrante apaziguada como eu, mesmo que Portugal seja pouco mais que o país onde nasci, há momentos em que a força das raízes e da língua é tão avassaladora que dei muitas vezes por mim a sentir-me calma e feliz ante uma caralhada portuguesa ouvida no metro. Quando me apetecia um Bitoque, ia até à casa do Sporting, em Notting Hill, e aquele sucedâneo mal parido dos maravilhosos bitoques de Lisboa sabia-me pela vida. Procurei várias vezes por Cérelac e por sumos Compal, mesmo que a granola escocesa e os sumos naturais abundassem lá por casa.

No mundial de futebol, em 2006, quando Portugal jogou com a Inglaterra, decidi ver o jogo sozinha em casa, num bairro 90% inglês. E chorei (se chorei!) ao primeiro acorde do hino. Foda-se, o hino…não há nada que te diga mais o quão pertences a um sítio do que a intensidade com que cantas o hino. E eu, que não me sinto igual ao Portugal de agora nem ao “portuguesismo” moderno, sou, indubitavelmente, portuguesa. Eterna emigrante mas, para sempre, lusa.

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Chorar

Durante muitos anos não chorei. Não tinha vontade, nada me tocava especialmente, nada me alegrava ou entristecia. A naturalidade das lágrimas acontece quando aceitamos isso como parte do que a vida é, com eventos que nos afectam, pessoas que nos magoam ou surpreendem e deixam felizes. Quando deixei de ter medo de chorar, isso passou a definir-me. Quem me acompanha no quotidiano sabe que todos os dias choro porque todos os dias me consigo emocionar com alguma coisa que vejo, tão aleatório quanto uma declaração de amor entre pais e filhos ou um cão que está feliz quando o dono regressa a casa. Agora raramente choro porque estou triste, e a tristeza atinge-me um bocadinho todos os dias também. Não me comovo com alguma música porque ela me deixa sorumbática mas, sobretudo, porque ele me parece mais bonita do que eu a imaginei.

Por isso, quando o olhar embacia de tanto aguentar um ribeiro que teima em saltar, sorrio e limpo as lágrimas. Não há nada de mal em chorar. Não há nada de mal em me emocionar. Não há nada de mal em ser humana.

Este vídeo emocionou-me muito esta manhã. Mas, seguramente, outros motivos se seguirão.

 

Quero voltar para a ilha…

Não sei o que vai acontecer com a saída do Reino Unido da União Europeia mas sei o que isso faz aos meus planos futuros e à minha geografia sentimental.

Numa altura em que a vida em Portugal não me oferecia grande entusiasmo, decidi emigrar para Londres. Não tinha dinheiro para mais de 1 mês, não conhecia ninguém, não tinha trabalho. Falava inglês, tinha cabeça para pensar e saúde para trabalhar. Estávamos em janeiro de 2005.

Vivi em Londres os melhores e mais difíceis anos da minha vida. Comi muita lata de feijão para conseguir pagar a renda, levei com muitas portas na cara e servi muitas mesas. Foram primeiros meses complicados para quem, como eu, vinha do privilégio e do seguro, em Lisboa. Meses depois, consegui o meu primeiro trabalho decente. Depois de largas semanas a fazer vendas porta a porta, veio o primeiro paycheck mensal. Curto, mas certo.

Londres não me deu tudo o que queria porque eu nem sabia que queria tanta coisa. Deu-me, sobretudo, a noção de horizonte, de que tudo é possível se trabalharmos e nos focarmos. Além disso, deu-me uma ideia mais clara do que é ser europeu. Numa cidade com tantas nacionalidades, pertencer à Europa era um privilégio que só lá compreendi, logo desde cedo, e nas coisas mais normais do quotidiano, desde o Social Insurance Number, que te chega mais rapidamente por seres de um “friendly country”, logo, menos atreito a questões que tornam o processo mais moroso; até ao facto de as saudades da família poderem ser atenuadas ao fim de semana, numa viagem de pouco mais de 2 horas. Seres europeu em Londres não te dava um livre passe para tudo, mas fazia com que te sentisses mais em casa do que qualquer outro emigrante que, como eu, lá estava a tentar a sua sorte.

Emigrar não é para todos. Até eu, que sempre o quis fazer, me senti pequenina a comprar um bilhete só de ida. Da mesma forma que me sinto pequena hoje, ao sentir que o meu sonho e o meu Plano B se foram, de uma penada. Do mesmo modo que fiz as malas e zarpei em 2005, tinha como ideal viver a minha reforma em Londres. E se, antes desses golden years, tudo corresse mal em Portugal, voltaria a enfiar meia dúzia de pertences dentro da mala e, feliz, voltaria à ilha.

Só o amor me prende em Lisboa. Mas é o amor a Londres que me fará sempre voltar.

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Masturbai-vos e ide em paz

Artigo originalmente escrito para o Delas.pt

Por muito modernas que gostemos de nos considerar, por muito caminho que a sexualidade feminina já tenha palmilhado, a verdade é que, até não há muito tempo, qualquer prática sexual que não tivesse o fito da procriação era vista como uma forma máxima de luxúria ou, no limite, de aberração. Pouco a pouco, os tabus vão caindo, o Homem sonha, o mundo pula e avança, e nós, mulheres, vamos podendo, finalmente, viver a nossa sexualidade como nos apetece. Ou será que não?

Tal como muitas outras facetas da sexualidade humana, a masturbação é um tabu e uma barreira difícil de transpor e normalizar. Sobretudo, se a mão que embala o (nosso) berço for delicada e feminina, isto porque, aqui d’el rei!, nos proteja a todos do vislumbre do prazer de uma mulher. E isto é tanto mais ridículo conquanto é uma ideia partilhada por ambos os sexos. Os homens, porque têm uma sexualidade infantilizada; as mulheres, porque são educadas na culpa e no pecado. E assim ficam todas as outras mulheres, mais livres ou menos atreitas ao juízo alheio, mas, sobretudo, mais escrutinadas e alvo de crítica.

E esse julgamento nem sempre é direto, objetivo. Muitas vezes ele chega-nos da cultura popular que nos rodeia. Vejamos o cinema. Quem se lembra do filme ‘Jovem procura companheira’, do início dos anos 90, em que a personagem retratada como estranha passa a ter uma moral questionável quando é vista num momento masturbatório? Também no filme ‘Corpo de Delito’, a cantora Madonna, atriz principal, é representada como uma mulher fatal, amante de um homem muito rico que morre enquanto tem sexo com ela. A cena em que ela se masturba serve o propósito de mostrar o poder sexual daquela mulher, que pode até chegar a matar. Isto, sem esquecer o ‘Cisne Negro’, em que Nina se masturba como forma de aceder ao seu lado mais cru e sedutor, necessário para a performance no espetáculo. E claro, o clássico ‘Exorcista’, em que a cena onanista de Blair é a prova cabal que está possuída pelo Diabo.

Posto isto, e todo o jugo moral que existe no olhar dos outros, que mulher quer assumir que se masturba? É que a mensagem que recebemos é clara: a masturbação é perversa e as boas meninas não se tocam. E as que o fazem, quem sabe que outros desvios escondem aqueles corpos e mãos sem pudícia? O modo como se liga a moral ao auto-erotismo feminino reveste a masturbação de uma vergonha que ela não pode ter. Somos entupidas de mensagens subliminares truncadas em filmes, livros, músicas e uma série de registos de cultura popular, na qual o conforto que sentimos com o nosso corpo e na nossa sexualidade é visto como uma ofensa e uma afronta aos delicados valores masculinos.

41 anos depois da revolução que nos trouxe a liberdade, onde anda a independência sexual feminina? A que nos deixa livres para ser e fazer como quisermos, como nos sentirmos melhor, como melhor nos representa? Não falo de consentimento alheio. Felizmente, e apesar dos pesares, deste lado do mundo a vida não nos é tirada porque decidirmos masturbar-nos ou ter sexo casual. Falo da independência de cada uma de nós, mulheres, face ao que é esperado, isso sim, ainda do tempo da outra senhora. Falo de encontrar o nosso erotismo e não esperar que ele nos seja trazido por um parceiro. A ideia que está subjacente à masturbação é a de que nos permitimos ter prazer sem que isso implique a existência do outro. Que não é a mesma coisa que dizer que só as pessoas sem parceiro se masturbam.

É por isto que um dia destes alguém devia criar um movimento de mulheres sexualmente independentes, as que estão de si para si sem que isso implique uma rejeição dos outros e pelos outros. Quem se chega a frente?

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Big Bang

Disclaimer: este não é um post comercial. 

Farta de estar um pote e de me andar a arrastar pela vida, decidi começar a treinar à séria. O que significa, de uma vez por todas, comprometer-me com aquilo que digo a mim mesma e deixar de ser uma criança parva. Sabendo que a minha condição física não era a melhor, fui de peito feito às balas do exercício. Toda lampeira na minha arrogância pueril, fui pesada, medida e avaliada pelo Mário Sá, treinador e mestre em desporto e nutrição.

Quando a balança vomitou os resultados, fiquei em choque. Com vários indicadores mas, sobretudo, com o da idade metabólica, que é aquele parâmetro que nos diz a idade do corpo, apesar do que está escrito no cartão do cidadão. Quando o Mário me disse “56”percebi que tinha batido no fundo. Quando continuou e me disse a percentagem de massa gorda neste corpo que carrego, ia-me baldando da bicicleta. E quando, finalmente, arrumou comigo depois do treino, achei que podíamos ter ali uma amizade para vida.

Posto isto, reorganizei-me. E, sobretudo, olhei para dentro e perguntei-me por que raio me trato tão mal? Porque é que só o intelecto é válido, só a cabeça merece cuidado? Deixando as respostas para outros fóruns, passei à acção. Começo hoje o primeiro treino e o primeiro dia em que fecho a boca ao que me pode levar a perpetuar a gordura em excesso, correndo risco de diabetes e outras doenças que tais.

Isto é um post sobre saúde. Aqui quero partilhar os meus resultados, sem recurso a fotos de antes e depois. Há que guardar o ego para outras batalhas.

Aguardem-me. IMG_6548

Das partilhas

É muito raro ter um feedback masculino. E este tocou-me o coração.
Estou muito grata.
Permita que me apresente. Chamo-me Pedro Borges, tenho 52 anos, sou professor, casado e tenho duas filhas. Moro em Abrantes. Terminei, hoje, de ler o seu livro e desde o início que pensei em lhe dirigir algumas palavras para lhe dar os parabéns. Gostei imenso de o ler. Gostei da sua escrita, da forma como usa a língua portuguesa, diverti-me como há muito não acontecia a ler um livro e identifiquei-me consigo e com a sua visão sobre o amor/sexo da humanidade. Concordo que precisamos de ar fresco e puro nas nossas relações.
Eu fui abusado sexualmente em criança. Várias vezes, em situações diferentes, por pessoas diferentes. Resolvi o assunto como pude, sozinho, por medo. No seu livro li pela primeira vez publicado que o homem também é ou pode sentir-se esmagado por ideias feitas a seu respeito nesta sociedade. Que grande verdade! Eu sinto-me assim todos os dias, apesar de ter conseguido encontrar um certo equilíbrio e de ser feliz. No entanto não encaixo no lugar comum do que é ser homem. Recurso aceitar que uma qualquer sociedade me diga que tenho de ser assim ou fazer assado dentro das quatro paredes que são da minha família.
Penso que estamos na idade da clarividência, os quarentas. E, demasiadas vezes, não gosto do que vejo… Tanto rótulo, tanta gente a opinar sobre a intimidade dos outros! 
Tento, também, colocar alguma luz relativamente a estes assuntos nas cabeças dos meus alunos. Muitos, tão novos, já estão completamente formatados… Que tristeza! Serei dos poucos. A maior parte dos professores pensa que não tem nada que falar de assuntos de sexo com os alunos. Que erro! Que pena! 
Desde que me conheço que tenho tido como objectivo fazer alguém feliz. Disso dependia e depende a minha própria felicidade. É uma espécie de altruísmo egoísta.  Acho que tenho conseguido. Mas tem sido uma pequena luta. Nem sempre as coisas fáceis são as mais prazerosas e duradouras…
Se achar que um cinquentão com estas características tem algum interesse para si, no âmbito de qualquer estudo nesta área, estou à sua disposição.
Entretanto, desejo-lhe as maiores felicidades e despeço-me, apresentando os meus cumprimentos e agradecimentos pelos agradáveis momentos que a leitura do seu livro me proporcionou.
O nome e a idade são fictícios por pedido expresso do autor do email.
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Confissão

Eu, pessoa adulta, me confesso: tenho um feitio de merda. Não sou má pessoa, sou uma pessoa difícil. Gosto que as coisas sejam todas como eu as determino na minha cabeça, uso e abuso da sobranceria em relação a pessoas pobres de espírito e sou incapaz de dar a outra face. Tenho tolerância zero para pessoas “boazinhas” porque ninguém é sempre bom, nem ninguém é sempre mau, logo, desconfio da extrema bondade que é, quase sempre, passivo agressiva.

Também eu sou passivo agressiva, faz parte do meu charme. Como não posso dizer tudo o que me apetece, vou insultando pessoas na minha cabeça e verbalizando o oposto. Apesar de tudo, não sou sociopata. Empatizo com algumas delas, tenho até compaixão, sobretudo pelas que não se podem ou não sabem defender.

Das idiossincrasias da minha adorável personalidade fazem parte uma dificuldade enorme em cada processo de aprendizagem, porque, do mesmo modo que não tolero o erro nos outros, também não tolero em mim, sobretudo o erro continuado. Irrita-me e faz-me perder o interesse.

Não sou sequer especialmente próxima das pessoas de quem sou próxima, sou, basicamente, uma amiga de merda porque, de tão metida que estou no meu umbigo, me esqueço que existem outros mundos e outras pessoas.

Esta lista podia continuar e eu podia, até, fazer como aquelas pessoas que dizem que o seu maior defeito é ser perfeccionista, mas não. Estes e dezenas de outros são os meus defeitos, as minhas características e a matéria crua de que sou feita. Naturalmente, há várias razões para este meu charmoso molde, mas não vêm ao caso. Estas coisas não se justificam, reconhecem-se, assumem-se e vive-se com elas.

E é isso que aqui estou a fazer. E só por pudor não continuo. Voilà. Eu, pessoa adulta, me confesso: tenho um feitio de merda e parece-me que não melhora.

PS. esta é a foto que melhor ilustra os momentos em que elimino pessoas na minha cabeça. Logo, a imagem que melhor me representa.

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