CR&ME

Uma das maiores batalhas da minha vida é a tentativa diária de não me tornar cínica. Esforço-me muito para não me deixar cair nesse poço sem fundo que é a indiferença perante o mundo, as pessoas e eu mesma. Na maior parte dos dias consigo ser tocada pelo mais pequenos e invisível dos gestos, mas este escudo que, algures no tempo, encontrei para me proteger da dor faz com que, tantas e tantas vezes, me esqueça de engolir a beleza do que me rodeia.

Perdidas no mundo existem (poucas) pessoas que, num estalar de dedos, me tiram da apatia cínica em que às vezes caio. Uma delas é o Cristiano Ronaldo. Um tipo que, na minha fantasia infantil, é tudo de bom. Admiro-lhe aquilo que não vejo em mim, sobretudo uma crença e uma vontade férreas, inabaláveis, inexpugnáveis e imunes ao cinismo que me cobre.

E agora uma confissão: quando às vezes sinto a cabeça enfiada no buraco onde habita a terrível noção de que sou auto-suficiente e imune aos outros, pergunto-me “o que faria Cristiano Ronaldo?” E depois imagino-lhe passos e atitudes, todas elas boas, não imunes ao erro, mas propulsoras de caminho e avanço.

A força mental deste super homem, cujo início de vida quase lhe ditava o destino, é das coisas que mais me fascinam e intrigam na vida. O que é que pensa quando está triste? Como se motiva quando precisa de força? Como vive a pressão da sua vida? Quando o vejo e ouço –  inabalável na vontade, imperturbável na crença, uma força rara, nos gestos, nas palavras, no carácter – fico subitamente mais forte. E tenho o raro, raríssimo, pensamento: se ele pode, eu também posso.

Obrigada, Cristiano.

 

Dia dos melhores amigos

Todos os dias, pelas 8 da manhã, há um senhor de idade que assenta arraiais no banco de jardim onde vou com a minha cria canina. “Bom dia”, digo-lhe e ele “Bom dia, menina”, responde-me, enquanto abre o chapéu, ora de sol, ora de chuva, e constrói a “casa” que o albergará até o dia levantar âncora. Traz com ele sacos cheios de pertences de outras vidas, que dispõe com o desvelo que atribuímos ao que nos é importante. No banco de pau improvisou um encosto, feito com a inteligência e minúcia de um cérebro ligado ao detalhe. “Está confortável?”, pergunto-lhe. E ele, entre o tímido e o cioso, diz-me “está tudo bem, menina.”

Tenho vontade de me sentar e falar com ele mas não é para isso que ali está. Observo-o de longe e admiro-lhe a pose. Sempre muito direito, costas em linha recta, como se não se vergasse à solidão de um parque sempre tão cheio de gente.

“Adeus, bom dia. Amanhã à mesma hora.”, digo-lhe, à saída. E ele acena-me, sem sonhar com o quão me toca a sua presença no meu quotidiano.

Hoje é dia dos melhores amigos.

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Uni Minho dá uma mão

Se estiverem a ler-me a norte, saibam que a Universidade do Minho (Escola de Psicologia) abriu a Unidade de Terapia de Casal e Sexologia.

Ajudar casais que estejam a passar por uma fase mais conturbada da relação, é o objetivo da nova Unidade de Terapia de Casal e Sexologia (UTCS), que arranca agora no Serviço de Psicologia da EPsi.
Frequentemente, a vida a dois pode passar de um sonho a um pesadelo. Dificuldades de comunicação, conflitos persistentes e disputas, infidelidade, ciúmes, crises do ciclo de vida (por exemplo: separação, divórcio), dependência afetiva, etc., são as queixas mais frequentes, aliadas, por vezes, a problemas sexuais. Neste sentido, a partir de agora, qualquer casal interessado na melhoria da sua relação, nos seus mais diversos níveis: comunicacional, compromisso, satisfação, ou que deseje um fortalecimento relacional, pode beneficiar da UTCS, coordenada pelo Investigador Adrián Montesano, contando com ajuda psicoterapêutica de elevada qualidade.
Numa fase inicial está prevista a realização de uma sessão, com um membro da equipa psicoterapêutica, para uma avaliação detalhada do casal, e para esclarecer qual a melhor opção de tratamento, conforme os problemas apresentados. O protocolo de tratamento é composto por 16 sessões, com periodicidade quinzenal. No entanto, a duração e a frequência do tratamento pode variar, dado que o plano de trabalho é desenvolvido com base numa avaliação detalhada dos membros do casal.

 

 

Luísa

Conheci a Luísa, primeiro, pela televisão. Gostei dela por me parecer desprovida da hipocrisia que sempre rodeia as figuras que nos entram casa dentro. Falava sem tiques, sem muletas, mas com a verdade necessária para se tornar pessoa.

Muitos anos mais tarde, voltei a conhecer a Luísa. Primeiro, através do seu filho do meio, depois, pelos olhos da sua filha, a mais nova. O primeiro filho chegou-me muito depois, já ela me tinha entrado no coração.

Para quem, como eu, procurava modelos femininos com que se identificar, ver a Luísa na televisão era uma espécie de garante de que as mulheres podiam ter uma voz. Conhecê-la, já adulta, é a certeza de que essa voz pode ser dissonante e verdadeira.

O seu último livro é a prova de que a Luísa não anda cá para agradar. Está para amar, sobretudo os seus filhos e os seus netos, num amor não é isento de dúvida, angústia, dor. Tudo emoções tão terrivelmente verdadeiras quanto raras vindas da pena de uma mulher.

São relatos do quotidiano, do que se passa dentro e fora de si, que Luísa nos dá conta. Um tom que não é confessional porque ela não se sente a ter que confessar coisa alguma. Há pessoas que vivem com os outros em mente, mas sem nunca perderem a capacidade de olhar para si mesmas. É difícil, corajoso, admirável. Como a própria Luísa.

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Whole 30. Whole life.

Eu não tenho um problema grave com a comida. Não tenho compulsões, distúrbios, anomalias que me levem a desenhar quadros clínicos, emocionais ou mentais mas sempre quis ter com os alimentos uma relação mais equilibrada. Ou seja, não passar o dia a pensar em comida e comer sem culpa.

Sou de uma família onde, felizmente, sempre houve muita e boa comida. Os pratos queriam-se cheios, porque o afecto se demonstrava a cada garfada e o dedo culinário da minha mãe tratava de me fazer ansiar pelas horas das refeições. Na minha cabeça pequenina, e nos hábitos que inculquei, era tanto mais amada quanto mais comida existisse no prato, no frigorífico e na barriga. Por isso, habituei-me a comer muito e mal (para os padrões que tenho agora) e quando os 30 chegaram os quilos a mais não voltaram a sair.

Mais uma vez, continuo sem ter um problema de peso. Tenho 10 quilos a mais que ainda cá estão porque não me livro desta culpa que sinto quando me apetece um chocolate (ou 10), e, sobretudo, da ansiedade de passar os dias a pensar no que vou comer e a sentir-me mal por comer o que, na minha cabeça, deve ser proibido.

Posto isto, foi com algum cepticismo que iniciei o Whole 30 na semana passada, um programa de detox inspirado na dieta PALEO que é bem capaz de ter os efeitos que sempre procurei. Já tinha lido bastante sobre o tema, o que ajudou a tomar a decisão, mas tudo o que li ficou aquém do vivo agora.

Tenho infinitamente menos fome, não me apetece “um docinho” a toda a hora, fico saciada mesmo quando as refeições não terminam com sobremesa e sinto-me alimentada mesmo quando a comida não me sai pelos olhos. Em suma, o que esta semana me trouxe foi exactamente aquilo que procurava: paz. Não ter que acomodar pensamentos sobre comida no meio de milhares de outros que carecem de mais urgência, não ansiar de cada vez que me sento à mesa, não sentir a ansiedade a desaparecer assim que a comida me chega ao cérebro, são vitórias desta semana e, espero, de todas as outras que estão para vir.

Estou grata ao Universo que me colocou no caminho deste Whole 30.

PS. o que estou a fazer é um detox inspirado no PALEO e Whole 30. Sem seguir nenhum dos dois à risca, as refeições são feitas com comida à séria, não há chás, comprimidos milagrosos, mézinhas caseiras. Come-se muito mas bem, sobretudo ao pequeno-almoço. Só para não pensarem que “vendo” a banha da cobra ou que isto é um post pago. 🙂

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Paris, mon amour

Não vos consigo descrever o que Paris fez e continua a fazer por mim. É graças aos dois anos que lá vivi que, ainda hoje, me toca a beleza das pequenas coisas. Foi ela que me colocou nas mãos autores que me enriquecem, que me mostrou as primeiras feministas e me ensinou o significado de “joie de vivre”. Na sua língua perfeita, elegante, Paris permitiu que aprendesse que a luxúria é importante e necessária para uma vida feliz, tão essencial como a alegria, o riso e o pensamento.

Se hoje me vejo como perambulante amadora devo-o às Boulevards parisienses, imensas, de janelas abertas para as vidas dos outros e para o meu voyeurismo instalado. Se um dos meus prazeres supremos é ficar sentada na rua a ver pessoas a passar, é porque Paris, bela e diversa, me chama para que a olhe com curiosidade e desvelo. Se tenho um gosto especial pela reflexão e pela conversa, é porque encontrei em Paris interlocutores interessados no verdadeiro diálogo, na reflexão pela reflexão, no falar pelo prazer de falar com o outro e consigo mesmos.

Devo a Paris tudo aquilo que tenho de mais distintivo. Encontrámo-nos e caímos nos braços uma da outra, numa relação tão forte que, quando terminou, precisámos de 16 anos de interregno até nos podermos rever, já mais velhas e necessariamente diferentes. Para o ano, vou reviver Paris, já adulta, sem o peso da idealização mas com a memória que sempre se guarda das relações importantes.

Corrida sofrida

Ontem fiz a terceira corrida em Monsanto, de preparação para o Trail de Fátima, a 6 de Dezembro. Depois da euforia da semana passada, em que corri 9 km, desta vez corri 8 mas foi insuportavelmente mais difícil. O que me fez repensar todo este plano e retirar algumas conclusões:

  1. Não vale a pena correr por correr. Não tenho intenção alguma de me tornar profissional da coisa, ver tempos ou chegar em primeiro nas provas, mas já que estou nisto, que me meti a correr quando jurei a mim mesma que não o faria nem para salvar a vida, então que o faça bem. Se tenho esta premissa em tudo na vida, por que razão adopto princípios diferentes no que toca à corrida? Não faz sentido.
  2. Não vale a pena correr sem treinar. Ou seja, aos 41 anos, correr sem fazer treino de reforço muscular não só contribui para uma daquelas lesões que me roubam meses de recuperação, como atinge em cheio a motivação necessária para esta demanda. Menos treino, mais cansaço, mais dores. Ou seja, daí até desistir é um passinho de Liliput.
  3. Não vale a pena começar à bruta. É importante ter um plano de treino mas quando os dias estão cheios de trabalho ou outras vidas que interrompem os trilhos da corrida, há que assumir a coisa, baralhar e dar de novo. A vida é composta de muitas variáveis, uma delas é o exercício. E para uma desistente crónica como eu é importante perceber a diferença entre não treinar porque as horas do dia não chegam para tudo, ou escapar a ele porque a nossa cabeça  enche os dias de lixo e modorra.

O esforço físico não é desconhecido para mim. Durante largos anos pratiquei ginástica de competição e um nível avançado de ballet, mas nada é tão duro como a corrida. Para quem não tem esse chip natural, como eu, correr é qualquer coisa que me obriga a trabalhar duas características que possuo em pouca quantidade: espírito de sacrifício e resistência ao desconforto. E nada do que li sobre corrida me satisfez a necessidade de saber de que forma isso pode ser moldado através deste tipo de exercício.

Por isso, decidi que até final do ano vou escrever sobre as dificuldades da corrida, mentais e físicas, sem floreados, sem rodriguinhos, sem merdas. Correr custa, dói, pede tudo. Não é o exercício do ego, dos músculos que enchem, da barriga que vai, do biquini que fica bem nas fotos. Também não é a “superação”, o “desafio” e todos os chavões apensos. Será coisas diferentes para diferentes pessoas. Para esta que vos escreve, ainda só é uma incógnita.

48

Os meus pais fazem hoje 48 anos de casados. 48. Isto já não existe, não se faz, os moldes dos tempos modernos definiram as relações como existências menos perenes e, sobretudo, menos confiáveis.

É muito difícil manter uma relação, sobretudo quando, ao contrário dos nossos pais, somos filhos de gerações a quem é poupado o desconforto quotidiano. Para eles, a vida não era tão fácil, tão instantânea, o trabalho era um valor em si mesmo e a frustração uma parte integrante de estar vivo. As pessoas viviam-se, aturavam-se, amavam-se. E mesmo quando não se amavam havia a noção de que os filhos (se os havia) ou o património conjugal construído era mais forte que uma fase menos apaixonada ou menos vedada a problemas ou fantasmas.

Havia menos e mais de tudo, no tempo dos meus pais. Sobretudo, havia menos desistência e mais coragem.

Hoje é mais difícil, sobretudo porque somos todos um pouco infantis quando toca a partilhar espaço e vida com alguém. Queremos muito uma relação mas apenas na medida em que ela não nos incomoda com as facetas e questões do outros; procuramos companhia para a vida moderna desde que estar a dois não seja assim tão diferente de estarmos sozinhos; seduzimos e mostramos intenções amorosas quando somos falhos dessa mesma capacidade de amar generosamente, que as relações sólidas sempre implicam.

É por isto e tantas mais coisas que estar casado com alguém durante 48 anos é um milagre. O da convivência, do respeito, do afecto e da vida.

Parabéns, pai e mãe.

A corrida e eu

Ando há muito tempo intrigada com a corrida e com os efeitos que vejo ter em quem corre. Como não sou pessoa para me entusiasmar com nenhum tipo de exercício, procuro nele algum substracto mental que me faça ter um módico de prazer em mexer-me para além de levar as carnes do sofá para a cama, seja na prática ou no processo mental que implica.

Até agora, e muito ajudada pelas pessoas com quem treino e pelo excelente local onde vou depositar as minhas esperanças em tornar-me uma pessoa verdadeiramente activa, o O2 Life Center, vejo o exercício como um mal necessário, uma coisa que me desconforta e incomoda mas me traz benefícios de saúde apreciáveis. Porém, isso não me chega para afastar o lado negro da força e incorporar as forças do bem que farão com que encontre a chamada “superação”, atingida por tantos e por mim desconhecida.

No domingo fui apoiar os maratonistas e dei por mim a chorar, emocionada com o esforço e a felicidade dos atletas. E, pela primeira vez, pensei que aquilo era coisa que talvez me fizesse saltar do sofá com vontade, esse pequeno detalhe que parece uma minudência mas é o que faz a diferença a longo prazo.

Corri duas vezes na vida e, a verdade, é que não foi tão mau quanto previa. Daí até me inscrever no primeiro trail foi um pulo carregado de curiosidade e uma dose cavalar de desconhecimento e inconsciência. Que é de onde, na minha vida, vieram as melhores coisas.

A ver.

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