Das escolhas

Pessoalmente ou online, a quantidade de relatos que me chegam e que versam sobre corações partidos são mais que muitos, e sempre no feminino. E embora cada história seja uma história, há pedaços de narrativa fáceis de identificar como sendo comuns a todas. Especialmente o item “respeito por si mesma”. Naturalmente, isto significa coisas diferentes para pessoas diferentes, mas há mínimos olímpicos, que são aqueles que todas nós, que já nos ignorámos pelo menos uma vez na vida, sabemos identificar mas não queremos saber.

Somos tão condicionadas a achar que a parelha é o único formato aceitável para uma vida feliz que, a partir de uma certa idade, nos agarramos ao primeiro idiota que nos disser o que queremos ouvir. E é muito fácil de descobrir esse guião porque ele é composto por todas as palavras, frases e gestos que se aplicam quando queremos manipular alguém. Acreditem: o desespero por amor e carinho tem um odor que vai longe e se é normal tropeçarmos em gente de merda a achar que o que sentimos é aroma de rosas, é complicado perpetuar essas escolhas a achar que há coisas que “só nos acontecem a nós”.

Vamos lá a ver uma coisa: escolher a pessoa errada uma vez é normal. Duas vezes, é distração. Três vezes, é padrão. E é esse padrão, esse modo como nos sentimos atraídas pelo que nos faz mal e, intencionalmente, nos entregamos a pessoas e relações podres, que faz com que o mundo nos pareça uma cáfila de filhos da puta que existe para nos tirar a paz e a alegria que merecemos ter. Não são sempre os outros que estão errados, somos nós que, ao instalá-los na nossa vida sabendo, ou intuindo, algo de errado, aceitamos que não vamos nunca ter melhor.

A vida não nos acontece. As nossas escolhas, sim.

tumblr_o63kslKPw41qf87z7o1_500

 

Espelho meu, espelho meu

Não sou a pessoa que mais amizade tem com o espelho. Não gosto de me mexer, tenho tendência para engordar e a minha matriz diz-me que um corpo magro é sempre preferível a um corpo menos magro. Não interessa de onde vêm os meus parâmetros, interessa que já não me servem. Ou não me vão servindo. Estou cansada de achar que só sou bonita se tiver menos 10 quilos, que só sou digna de afecto se a balança acusar menos peso, que o mundo vai finamente reparar que eu existo quando ficar metade do que sou.

Tenho este tipo de questões desde que me lembro de existir mas a idade tem-se encarregado de limpar algum pó e acentuar outras poeiras, como esta. O lançamento do livro veio de novo acordar esta besta meio adormecida. O facto de me ver pesada em cada foto (e foram muitas…) fez com que tomasse e deixasse de tomar medidas. De todas, ficou a da saúde. Mexo-me para ser saudável, ponto final. Não parágrafo, porque há dias, como o de hoje, em que os demónios andam à solta e me fodem o juízo a cada passo.

Há pouco encontrei esta foto. Adoro-a.

13413378_1738263979796284_619939633_n.jpg

Se é verdade que, numa relação, a libido feminina claudica mais rapidamente que a do homem, isso não significa que exista um problema, uma disfunção. Na maior parte dos casos, a libido e o desejo diminuem porque a falta de comunicação sexual é uma questão cada vez mais presente nas relações e motivo de desentendimento entre as partes.

Bem sei que esta é uma ideia de difícil digestão, sobretudo porque vivemos tempos pouco iluminados em que as crenças que temos servem, a mais das vezes, o silêncio do que o verbo. De outra forma, por que razão alguns de nós valorizam tanto a ideia de “não ser preciso falar”? Parece que não comunicar verbalmente passou a ser uma medida de sucesso e entendimento na relação. “Ai, entendo-me tão bem com fulano de tal que nem precisamos de falar!”. Não? Nunca? Nada? E quando o desejo não bate aos dois da mesma forma? Quando o tempo ameaça cortar essa linha invisível de comunicação não verbal e pouco verbosa, beliscando o sexo e, por vezes, marcando-o de morte?  Aí, sim, fala-se, mas em tom de “j’accuse!”, de mágoa e de discórdia.

A falta de comunicação, sexual e outras, é das principais causas de desentendimento entre casais. Ainda assim, teimamos em não falar. E teimamos porque dizer ao parceiro que gostamos do que gostamos traz consigo o medo do julgamento e, com ele, o medo de não sermos amadas por isso. E, assim, acabamos por ceder e aceitar o que a cama nos traz, e ignorar o modo, a forma e tantos outros aparentes detalhes que fazem do acto sexual aquilo que também nos representa enquanto mulheres.

Falemos. Façamos, mas falemos. Mesmo quando não queremos fazer.

superhero

Dia da Mulher

Usurpando uma ideia de Simone Beauvoir, não me tornei feminista quando nasci mas fiz-me feminista quando cresci. E isso não foi assim há tanto tempo.

A minha mãe é o meu exemplo de feminismo. Era (e é) uma mulher bonita, generosa, inteligente, de intuição refinada e nobreza de carácter. Cresci a vê-la trabalhar, progredir, enquanto nos educava e lidava com os seus próprios demónios. Foi a minha mãe que me tornou feminista, não eu. É dela o trabalho de me ensinar a resistência (na qual tenho falhado à bruta…), a elegância perante os mais fracos e uma cerrada noção de privacidade. Foi também ela que me ensinou o valor das amizades profundas e duradouras e do modo como elas nos estruturam, dão raízes e apontam o norte.

Ser feminista não é ser contra nada, é ser a favor de nós mesmas. Não celebrar um dia que homenageia a luta de todas as mulheres antes de nós, as que viveram para que pudéssemos ter pio, não é ser “realista” ou “não ter pachorra” é estar falha de um amor próprio que se quer encontrado. Vomitar cinismo em cima de quem celebra e trabalha a favor do feminismo, não é “ser cool” é ter o privilégio de viver num mundo desenhado por outras.

Enquanto vocês praticam a nobre arte do sarcasmo, estão dificultar o caminho a quem se ocupa a salvar a vida de tantas outras mulheres, a tornar a sua existência mais justa e pacífica, e a colocá-las a salvo da selvajaria do mundo. Tudo isto enquanto vocês limam as unhas no vosso altar solipsista.

Naturalmente, não temos de ser todas iguais. Felizmente, não somos. A não ser no propósito de cada uma, individualmente, na sua esfera privada, pública ou de influência, lutar pela igualdade de direitos e estender a mão em vez de dar o pé. Não querem ser chamadas de feministas? Tudo bem. Não se chama. Mas, pelo amor da santa, que era mulher, se não querem fazer nada, ao menos não atrapalhem.

Feliz Dia da Mulher para todas. Sim, também para vocês.

war_between_women

 

Amizades políticas

Quando na semana passada partilhei no Facebook um texto da Clara Ferreira Alves, no qual se intitulava de anti-comunista, fi-lo com a consciência de que, ao endossá-lo, chamava esse epíteto também para mim. Paradoxalmente, não sou anti-nada, usei a expressão à boleia da autora, sem grandes cogitações ou preocupações sobre o assunto. Ainda assim, 10 minutos depois, olhei para o número de amigos virtuais e reparei, sem grande espanto, que 4 deles tinham rumado a outras amizades, provavelmente porque o meu “direitismo” as incomodou de tal forma que sentiram esse ímpeto e essa necessidade.

Das 4 pessoas que se zangaram reconheci apenas duas. E espantei-me. Não porque as sabia perto mas porque, não há muito tempo, ambas, separadamente, me pediram ajuda, requisitaram o meu tempo, acharam que a minha palavra e o ombro eram suficientemente dignos para encostarem as suas preocupações, medos e frustrações. Quando me ligaram e se encontraram comigo até que lhes doesse menos as entranhas, num caso, ou até que as minhas sinapses ajudassem as deles a funcionar, no outro, as minhas escolhas políticas não foram importantes. Quando limpei lágrimas e ranho, num caso, e retirei do tempo de amigos para ajudar num caso bicudo, de outro, ser ou não comunista, ou mesmo anti-comunista, não pesou. Pesa agora.

Nada neste “desaparecimento” me incomoda, entristece ou ofende. Sei, desde muito cedo, que, na maior parte das horas do dia, nos bastamos a nós mesmos. As conclusões que tiro não beliscam em nada o tipo de pessoa que vejo todos os dias ao espelho. Mas não há como entender este facto que me parece óbvio: que as escolhas políticas determinam, aos olhos dos outros, o tipo de pessoas que somos, como se a matéria de que somos feito fosse apenas direita ou esquerda. E que isso é mais importante que a memória e que a bondade.

Este triste episódio não me faz ficar descrente das pessoas. Mas lá que a política, o poder e ego destroem corações e cabeças, disso não tenho dúvida.

politics-makes-me-sick-quote-1

#carademorta

Não vou estar com grande merdas no início deste texto. O #carademorta começou porque, verdade verdadinha, sou uma desistente. Desisto de tudo o que me causa desconforto, incómodo ou me obriga a fazer coisas que não quero. Tenho muita dificuldade em olhar para lá das chatices que isso provoca e habituei-me a pensar em mim mesma como preguiçosa. Justamente porque a preguiça é socialmente aceite, por vezes até encorajada, achei que rotular-me dessa forma, embora não me trouxesse grande motivo de orgulho, me permitia continuar a desistir de tudo aquilo que dava trabalho a mais. De tudo o que consegui ir ultrapassando, o exercício tem sido a minha última fronteira. Começo com grande força mas ao fim de um mês, lá está, desisto. Por isso, estou aqui para vos dizer que sim, sou uma desistente. Ou era.

Bastou um diagnóstico de tiróide em ácidos para realmente perceber que ser desistente não levava a lado nenhum. Ou melhor, levava àquela beira mar que conheço bem, que é onde se morre na praia. Nunca fui ao fim de nada porque me escuso sempre de saltar nesse escuro onde se encontram as melhores coisas do mundo. Mas decidi, e tenho de decidir todos os dias, a todas as horas do dia, que desistir, no meu caso, não me permite viver tudo aquilo que sei que tenho de bom mas não me permito chegar.

Faz hoje 16 dias que recomecei a praticar exercício e tenho-o feito com tal empenho e força que no final de cada treino fico com cara de morta. As fotos que tenho colocado na minha página são os traços do meu esforço, vontade e capacidade de fazer as escolhas certas nos momentos em que isso me é pedido.

Porque sei que não sou a única, gostava de organizar uma pequena mostra de #carademorta com as vossas caras, suadas, transpiradas e muito esforçadas. Não há agenda nem motivos esquivos. O exercício que fazemos é sobretudo para a cabeça. O corpo, o espelho, o peso, é apenas o que sobra de tudo o que de bom acontece quando vamos além do que pensávamos ser capazes.

Obrigada

#carademorta

Dos tablóides e das “figuras públicas”

Por razões de somenos, tenho alguns amigos que são aquilo que se designa por “figuras públicas”. São pessoas de outras vidas, do passado mais e menos recente, do colégio, da faculdade, dos amigos de amigos e, sobretudo, do trabalho. Gente que, no decorrer do seu ganha pão, entra pelos nossos olhos e ouvidos adentro, conferindo-lhes, por isso, o tal estatuto “público”.

Mesmo que os meus olhem brilhem mais pelo seu lado privado, entendo que seja a faceta pública a que desperta mais curiosidade de quem segue o trabalho destas pessoas, meus amigos. Porem, como em tudo, há de tudo. Tal como existe quem respeitosamente pede para tirar uma foto de uma pessoa que admiram, outras há que ignoram a vontade da mesma e nem pedem licença. O mesmo se passa com as revistas “cor-de-rosa”. Há quem procure saber e, não sabendo, mude o ângulo ou desista de uma “reportagem” e quem, nas mesmas circunstâncias, minta e recorra e expedientes criminosos de maneira a obter uma capa sonante.

Sei milhares destas histórias, de capas e interiores que não têm semelhança alguma com a realidade que querem transmitir colocando discursos directos em bocas que não existem nem nunca tiveram som. Uns telefonemas para os visados, os ditos dizem não comentar, e saem duas páginas de “fontes próximas”, sempre conhecedoras dos estados de alma dos protagonistas e prontas a corroborar o caminho da “investigação”.

Ora, sucede que esta semana a mentira tocou-me ainda mais perto, de modos que ainda hoje me espantam e chocam. A coberto de uma suposta amizade, entraram em casa de um amigo e tentaram, por todos os meios, fazer com que a sua mãe, de 81 anos (81, foda-se!) dissesse que ele era mau filho, que não a visitava, um crápula da pior espécie que negligenciava a mãe, largada à sorte de uma empregada, enquanto ele, o biltre, se pavoneava na TV. Quando a minha Tia Helena disse exactamente o oposto, o “ângulo” deixou de ser “Fulano de Tal é um pécora” para “Fulano de Tal sofre pela mãe”. Relembro que esta “pessoa” entrou em casa de uma senhora de 81 anos (81, foda-se!), mentindo. Não contente com isso, tirou fotos às fotos de família, aos recados colados no frigorífico, com números de telefone e demais informação que interessa apenas a quem dela faz uso, não se coibindo ainda de falar na morte do meu Tio, coisa que ainda dói aos mais próximos. Para além de uma capa nojenta, há duas ou três páginas de intimidade caseira esventrada pela falta de escrúpulos de pessoas que, à falta de melhor expressão, são doentes.

As chamadas “figuras públicas” não são mais do que qualquer pessoa. Não podem é ser menos. E achar-se que se “metem a jeito”, ou que “estavam a pedi-las” apenas porque o seu escritório fica numa qualquer TV perto de nós, é, para além de uma idiotice sem tamanho, um precedente perigoso.

Há quem chame jornalismo a este esterco. Eu chamo caso de tribunal. Felizmente, é aí que vai parar.

Black dog

Nunca tive uma depressão embora já tenha passado por alguns estados depressivos. Faço terapia desde os 14 anos, com intervalos mais e menos extensos, e tenho a noção exacta de que sou como sou (seja lá isso o que for) porque tive a sorte de ter uma mãe que, não sabendo o que me fazer, me levou a quem sabia, e de essa pessoa moldar, para melhor, a forma como vivo dentro de mim mesma.

Como expliquei, depressões nada. Uma ou outra tristeza mais profunda, perfeitamente justificada e enquadrada mas nunca me senti a perder o pé.  A não ser nos anos (a-n-o-s) de Transtorno de Pânico fundado numa ansiedade crónica que hoje está perfeitamente domada.

Escrevo isto porque ainda hoje me lembro da notícia dos milhões (milhões, mesmo) de caixas de antidepressivos vendidos todos os dias em Portugal e dos relatos incríveis de gente que, não estando bem, recorre ao médico de família. Coisa que faz tanto sentido quanto ter um eczema na pele e ir ao dentista. É como se o facto de não procurarem um psicólogo/psicoterapeuta/psicanalista/psiquiatra os tornasse, de modo automático, imunes a depressões ou doenças do foro mental, mais e menos graves. Daí até se encharcarem de comprimidos que entorpecem, nomeadamente, a capacidade de perceberem se os ditos são ou não uma opção viável, é um passo de gigante que afunda mais do que traz à tona.

Porque me sinto demasiado envolvida neste assunto para conseguir trazer para a discussão alguma coisa de novo, deixo-vos com esta pequena narrativa sobre a depressão e o black dog, que é, de todas as que encontrei, a melhor. E se sentirem alguma coisa similar, peçam ajuda a quem vos pode ajudar. E a mais ninguém.

Dos silêncios e das aparentes conversas

O mundo (também) se divide entre as pessoas que falam e as pessoas que escutam. E está muito bem assim, digo eu, que tenho hábitos de escuta que me transformam na pessoa favorita para desabafos e conselhos de quase todas as outras que conheço e, pasme-se, que não conheço.

Ser este ouvido gigante, coisa que parece nascer de um desinteresse por mim mesma, é sinal exactamente do oposto. Assim acontece, primeiro, porque ganhei uma noção de intimidade que vai muito além do pudor normal de partilha, depois, porque há muito que descobri que há mundos inteiros por detrás das palavras que se ouvem. Com elas, vêm um olhar que se esgueira, umas mãos que não param e um corpo inteiro que tagarela sem filtro, e é aí que eu prefiro estar.  Anos de coaching também me ajudaram a treinar a “escuta activa”, uma capacidade de vital importância no combate social.

Ouço (infinitamente) mais do que falo porque não tenho necessidade do desabafo. Tenho um divã e um amor que me escuta mesmo quando, a meio da noite, há uma ideia ou uma epifania que teimam em dar de si. Com isto, as conversas, mais ou menos participadas por mim, são um prazer, não são urgências.

A vida está cheia de faladores compulsivos, bocas sem ouvidos, sem olhos e sem vontade de deixar cair o som das palavras. Não sei se se enamoram pelo som da sua voz ou se precisam, absoluta e compulsivamente, de falar sobre tudo, com medo de ficar sem pio, de vez. Eu aprendo muito com estas pessoas, tenho genuína curiosidade sobre elas e tento não fazer um julgamento moral, mas não consigo ser mais do um gigante muro para as suas lamentações ou parede para um ou outro graffiti intelectual.

Mas está bem assim, o mundo. O meu tem silêncio para dar e vender e, no entanto, em casa falamos até debaixo de água. 🙂