Lunar

Um dos perigos da era moderna é esta imposição de felicidade. A tristeza, a zanga, a raiva, todas elas emoções que nos servem tantas vezes de espelho ao que nos leva tristes, deram lugar a uma alegria bacoca e editada que nos forçamos a sentir.

Não eu. Não hoje. E não aqui. Porque não me faltam a zanga com o mundo, a raiva que sinto de alguns outros e a tristeza que aparece por me sentir assim. Reconheço bem estes sintomas. São pedaços da minha natureza que se manifestam de cada vez que sinto a injustiça a rondar-me a vida e o controlo (que sei não existir mas cuja aparência preciso como do pão para a boca) a fugir-me por entre os dedos.

E sempre que a vida me traz até aqui, há um negrume que me sai das entranhas e desvenda o animal raivoso que sou, lá fundo. Torno-me irracional, violenta, feia. Tenho de fazer um esforço consciente para me lembrar que sou humana, para convocar a bondade que sei também ter, e engolir a mágoa e as zangas que me acompanham nestes dias mais sombrios.

Tenho também de me disciplinar a não usar o chicote que tenho sempre apontado ao meu próprio lombo e lembrar-me, a todas as horas do dia, que sou apenas uma pessoa. Não tem mal estar triste. Não tem mal sentir coisas feias e assustadoras. O que tem mal é fingirmos que engolimos o sol quando estamos em profundo e completo estado lunar.

photograph-the-moon

 

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