42

Não sei para onde é que o tempo levou os demónios mais negros mas sei que o que ficou nesse lugar foi uma força e uma crença na vida tão grandes que, aos 42, me sinto com a força de mil Homens.

Hoje é o melhor dia do ano. Foda-se, hoje faço 42 e estou melhor do que nunca.

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Delas.pt – líbidos diferentes

Este blog anda a banhos mas há sempre tempo para coisas boas.

Quem já esteve numa relação sabe o que todos temos pudor de admitir e reconhece uma verdade que só alguns têm coragem para assumir: os membros do casal não têm a mesma libido. É um facto, está provado, mas, ainda assim, em início de paixão fulgurante, fingimos ou esquecemo-nos de que é assim e convencemo-nos que a força e a febre sexuais dos primeiros tempos se vai manter para sempre. Não vai. E está na altura de enfrentar o assunto.

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Delas.pt – dogging

Sobre dogging, no Delas.pt.

Quem é amiga, quem é, que vos traz coisas bonitas logo pela manhã?

Nascida em Inglaterra na década de 70, o nome desta prática, ao contrário do que possa induzir a palavra, não tem especificamente a ver com o dog, o cão, mas com o facto de os mesmos poderem ter sexo na rua, o que, no fundo, é o ponto essencial do dogging . Se ultrapassarmos o estrangeirismo, o dogging é a prática pública de sexo consentido, dentro do carro, com uma ou mais pessoas a ver, normalmente enquanto se masturbam. Ao exibicionismo junta-se o voyeurismo. Combina-se o prazer de fazer com o prazer de observar, ruma-se a um parque ou lugar isolado ou de pouco movimento, e eis que o dogging se dá em todo o seu esplendor. Diz quem sabe que o prazer sexual se intensifica pelos pares de olhos que observam de perto através do vidro do carro, gerando mais excitação.

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CR&ME

Uma das maiores batalhas da minha vida é a tentativa diária de não me tornar cínica. Esforço-me muito para não me deixar cair nesse poço sem fundo que é a indiferença perante o mundo, as pessoas e eu mesma. Na maior parte dos dias consigo ser tocada pelo mais pequenos e invisível dos gestos, mas este escudo que, algures no tempo, encontrei para me proteger da dor faz com que, tantas e tantas vezes, me esqueça de engolir a beleza do que me rodeia.

Perdidas no mundo existem (poucas) pessoas que, num estalar de dedos, me tiram da apatia cínica em que às vezes caio. Uma delas é o Cristiano Ronaldo. Um tipo que, na minha fantasia infantil, é tudo de bom. Admiro-lhe aquilo que não vejo em mim, sobretudo uma crença e uma vontade férreas, inabaláveis, inexpugnáveis e imunes ao cinismo que me cobre.

E agora uma confissão: quando às vezes sinto a cabeça enfiada no buraco onde habita a terrível noção de que sou auto-suficiente e imune aos outros, pergunto-me “o que faria Cristiano Ronaldo?” E depois imagino-lhe passos e atitudes, todas elas boas, não imunes ao erro, mas propulsoras de caminho e avanço.

A força mental deste super homem, cujo início de vida quase lhe ditava o destino, é das coisas que mais me fascinam e intrigam na vida. O que é que pensa quando está triste? Como se motiva quando precisa de força? Como vive a pressão da sua vida? Quando o vejo e ouço –  inabalável na vontade, imperturbável na crença, uma força rara, nos gestos, nas palavras, no carácter – fico subitamente mais forte. E tenho o raro, raríssimo, pensamento: se ele pode, eu também posso.

Obrigada, Cristiano.

 

Tuga

Sempre quis morar noutro país. Nada contra este, que me acolhe e ao qual estou grata, mas há sítios onde me sinto melhor. Como em Londres. Emigrar não é uma coisa fácil, até para mim que tenho essa ambição desde que me lembro de existir e ir ao aeroporto dizer adeus aos aviões que levavam os meus primos de volta para os Estados Unidos, no final de cada verão.

Mudei-me para Londres em janeiro de 2005 e, de imediato, me apercebi que era ali que queria viver. Tornei-me londrina no momento em que me acomodei ao ritmo, fundamentalmente diferente, das horas e dos dias. Fiz amigos de todos os lados do mundo aos quais ainda me ligo (hey, Sri Lanka!), ganhei hábitos diferentes (adoro levantar-me cedo), gostos que mantenho até hoje (continuo a ler diariamente a imprensa inglesa) e, na maior parte do dia, penso e leio em inglês.

Mas mesmo assim, mesmo para uma emigrante apaziguada como eu, mesmo que Portugal seja pouco mais que o país onde nasci, há momentos em que a força das raízes e da língua é tão avassaladora que dei muitas vezes por mim a sentir-me calma e feliz ante uma caralhada portuguesa ouvida no metro. Quando me apetecia um Bitoque, ia até à casa do Sporting, em Notting Hill, e aquele sucedâneo mal parido dos maravilhosos bitoques de Lisboa sabia-me pela vida. Procurei várias vezes por Cérelac e por sumos Compal, mesmo que a granola escocesa e os sumos naturais abundassem lá por casa.

No mundial de futebol, em 2006, quando Portugal jogou com a Inglaterra, decidi ver o jogo sozinha em casa, num bairro 90% inglês. E chorei (se chorei!) ao primeiro acorde do hino. Foda-se, o hino…não há nada que te diga mais o quão pertences a um sítio do que a intensidade com que cantas o hino. E eu, que não me sinto igual ao Portugal de agora nem ao “portuguesismo” moderno, sou, indubitavelmente, portuguesa. Eterna emigrante mas, para sempre, lusa.

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Chorar

Durante muitos anos não chorei. Não tinha vontade, nada me tocava especialmente, nada me alegrava ou entristecia. A naturalidade das lágrimas acontece quando aceitamos isso como parte do que a vida é, com eventos que nos afectam, pessoas que nos magoam ou surpreendem e deixam felizes. Quando deixei de ter medo de chorar, isso passou a definir-me. Quem me acompanha no quotidiano sabe que todos os dias choro porque todos os dias me consigo emocionar com alguma coisa que vejo, tão aleatório quanto uma declaração de amor entre pais e filhos ou um cão que está feliz quando o dono regressa a casa. Agora raramente choro porque estou triste, e a tristeza atinge-me um bocadinho todos os dias também. Não me comovo com alguma música porque ela me deixa sorumbática mas, sobretudo, porque ele me parece mais bonita do que eu a imaginei.

Por isso, quando o olhar embacia de tanto aguentar um ribeiro que teima em saltar, sorrio e limpo as lágrimas. Não há nada de mal em chorar. Não há nada de mal em me emocionar. Não há nada de mal em ser humana.

Este vídeo emocionou-me muito esta manhã. Mas, seguramente, outros motivos se seguirão.

 

Sexless

Novo artigo no Delas.pt

Há quem diga que a líbido esmorece, que o interesse desaparece, que a vontade fenece, mas será o casamento o verdadeiro responsável pelo fim do sexo nas relações? Não faltam relatos de vidas sexuais excitantes antes do “sim, aceito”, ou mesmo nos tempos em que a ideia de vida em comum ainda não foi concretizada. As histórias começam quase sempre do mesmo modo: uma atração fulminante, uma sexualidade diversa, constante, primorosa, até que o casamento ou a vida em comum se divertem a desfazer aquilo que a natureza e o desejo construíram. Será que a intimidade e o doméstico matam a vida sexual dos casais?

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Das escolhas

Pessoalmente ou online, a quantidade de relatos que me chegam e que versam sobre corações partidos são mais que muitos, e sempre no feminino. E embora cada história seja uma história, há pedaços de narrativa fáceis de identificar como sendo comuns a todas. Especialmente o item “respeito por si mesma”. Naturalmente, isto significa coisas diferentes para pessoas diferentes, mas há mínimos olímpicos, que são aqueles que todas nós, que já nos ignorámos pelo menos uma vez na vida, sabemos identificar mas não queremos saber.

Somos tão condicionadas a achar que a parelha é o único formato aceitável para uma vida feliz que, a partir de uma certa idade, nos agarramos ao primeiro idiota que nos disser o que queremos ouvir. E é muito fácil de descobrir esse guião porque ele é composto por todas as palavras, frases e gestos que se aplicam quando queremos manipular alguém. Acreditem: o desespero por amor e carinho tem um odor que vai longe e se é normal tropeçarmos em gente de merda a achar que o que sentimos é aroma de rosas, é complicado perpetuar essas escolhas a achar que há coisas que “só nos acontecem a nós”.

Vamos lá a ver uma coisa: escolher a pessoa errada uma vez é normal. Duas vezes, é distração. Três vezes, é padrão. E é esse padrão, esse modo como nos sentimos atraídas pelo que nos faz mal e, intencionalmente, nos entregamos a pessoas e relações podres, que faz com que o mundo nos pareça uma cáfila de filhos da puta que existe para nos tirar a paz e a alegria que merecemos ter. Não são sempre os outros que estão errados, somos nós que, ao instalá-los na nossa vida sabendo, ou intuindo, algo de errado, aceitamos que não vamos nunca ter melhor.

A vida não nos acontece. As nossas escolhas, sim.

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Quero voltar para a ilha…

Não sei o que vai acontecer com a saída do Reino Unido da União Europeia mas sei o que isso faz aos meus planos futuros e à minha geografia sentimental.

Numa altura em que a vida em Portugal não me oferecia grande entusiasmo, decidi emigrar para Londres. Não tinha dinheiro para mais de 1 mês, não conhecia ninguém, não tinha trabalho. Falava inglês, tinha cabeça para pensar e saúde para trabalhar. Estávamos em janeiro de 2005.

Vivi em Londres os melhores e mais difíceis anos da minha vida. Comi muita lata de feijão para conseguir pagar a renda, levei com muitas portas na cara e servi muitas mesas. Foram primeiros meses complicados para quem, como eu, vinha do privilégio e do seguro, em Lisboa. Meses depois, consegui o meu primeiro trabalho decente. Depois de largas semanas a fazer vendas porta a porta, veio o primeiro paycheck mensal. Curto, mas certo.

Londres não me deu tudo o que queria porque eu nem sabia que queria tanta coisa. Deu-me, sobretudo, a noção de horizonte, de que tudo é possível se trabalharmos e nos focarmos. Além disso, deu-me uma ideia mais clara do que é ser europeu. Numa cidade com tantas nacionalidades, pertencer à Europa era um privilégio que só lá compreendi, logo desde cedo, e nas coisas mais normais do quotidiano, desde o Social Insurance Number, que te chega mais rapidamente por seres de um “friendly country”, logo, menos atreito a questões que tornam o processo mais moroso; até ao facto de as saudades da família poderem ser atenuadas ao fim de semana, numa viagem de pouco mais de 2 horas. Seres europeu em Londres não te dava um livre passe para tudo, mas fazia com que te sentisses mais em casa do que qualquer outro emigrante que, como eu, lá estava a tentar a sua sorte.

Emigrar não é para todos. Até eu, que sempre o quis fazer, me senti pequenina a comprar um bilhete só de ida. Da mesma forma que me sinto pequena hoje, ao sentir que o meu sonho e o meu Plano B se foram, de uma penada. Do mesmo modo que fiz as malas e zarpei em 2005, tinha como ideal viver a minha reforma em Londres. E se, antes desses golden years, tudo corresse mal em Portugal, voltaria a enfiar meia dúzia de pertences dentro da mala e, feliz, voltaria à ilha.

Só o amor me prende em Lisboa. Mas é o amor a Londres que me fará sempre voltar.

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